Projetos previstos para Nossa Senhora do Socorro e Barra dos Coqueiros colocam em discussão incentivos públicos, infraestrutura energética, recursos hídricos e os impactos ambientais provocados pela expansão da inteligência artificial.
A expansão dos data centers destinados ao processamento de grandes volumes de informações e aplicações de inteligência artificial abriu uma nova frente de discussão política e ambiental em Sergipe. Reportagem publicada nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, pela Mangue Jornalismo aponta a existência de pelo menos dois projetos com protocolos de intenção assinados no estado. O empreendimento com informações mais detalhadas está previsto para Nossa Senhora do Socorro, na Grande Aracaju, e teria capacidade projetada de consumo elétrico de até 2 gigawatts (GW) quando estiver plenamente operacional. Segundo a reportagem, o consumo atual de Sergipe é de aproximadamente 700 megawatts (MW), o que dimensiona o desafio energético associado ao projeto. (Mangue Jornalismo)
O crescimento desse tipo de infraestrutura está diretamente relacionado à expansão da inteligência artificial, computação em nuvem e outros serviços digitais que precisam processar e armazenar enormes volumes de dados. Data centers de hiperescala concentram milhares de servidores funcionando continuamente e, por isso, dependem de grandes quantidades de eletricidade e de sistemas eficientes de refrigeração. A Empresa de Pesquisa Energética já incorporou a expansão dos data centers às projeções nacionais: estimativas recentes consideram aproximadamente 5 GW de demanda relacionada ao segmento até 2030, mostrando que a discussão de Sergipe faz parte de uma transformação maior da infraestrutura elétrica brasileira. (Gesel)
Projeto de Nossa Senhora do Socorro chama atenção pelo tamanho
O empreendimento previsto para Nossa Senhora do Socorro seria instalado em uma área próxima à BR-101 e deverá ocupar parte da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe. De acordo com a investigação publicada nesta segunda-feira, o governo estadual negocia há cerca de dois anos a instalação de um data center da Optimus Technology Group. O projeto ocuparia cerca de 440 mil metros quadrados dos aproximadamente 880 mil metros quadrados destinados à ZPE e também teria um centro de formação relacionado à inteligência artificial. (Mangue Jornalismo)
A dimensão energética é um dos pontos que mais chamam atenção. A reportagem afirma que o projeto foi concebido para atingir 2 GW de consumo quando estiver totalmente operacional. A comparação com os cerca de 700 MW atribuídos ao consumo atual de Sergipe mostra por que a instalação de grandes centros de processamento deixou de ser apenas uma questão empresarial e passou a envolver diretamente planejamento energético, políticas públicas e decisões sobre infraestrutura. (Mangue Jornalismo)
Incentivos fiscais colocam política pública no centro da discussão
Outro ponto relevante é a participação do poder público na tentativa de atrair esses investimentos. Nossa Senhora do Socorro aprovou em julho de 2025 uma legislação municipal destinada a incentivar a instalação de data centers, incluindo benefícios tributários e urbanísticos. Entre as medidas mencionadas pela investigação está a possibilidade de isenção do IPTU por até dez anos, prorrogável por mais cinco, mediante determinadas condições. (Mangue Jornalismo)
Esse tipo de incentivo transforma o avanço dos data centers em uma questão política porque envolve uma escolha sobre desenvolvimento econômico. Governos podem considerar esses empreendimentos estratégicos por ampliarem investimentos em infraestrutura digital, atraírem empresas e estimularem qualificação profissional. Por outro lado, os benefícios precisam ser avaliados em conjunto com o volume de energia e outros recursos exigidos pelas instalações, especialmente quando existem renúncias fiscais e necessidade de expansão da infraestrutura pública.
Água também preocupa com expansão da inteligência artificial
A eletricidade não é o único recurso envolvido. Grandes instalações computacionais geram calor continuamente e precisam de sistemas de refrigeração para manter milhares de equipamentos funcionando dentro de temperaturas adequadas. Dependendo da tecnologia adotada, a operação pode demandar volumes relevantes de água. A investigação sobre Sergipe cita inclusive a possibilidade de utilização de recursos relacionados ao Rio São Francisco, embora os detalhes definitivos da operação ainda dependam da configuração dos projetos. (Mangue Jornalismo)
A discussão ganhou espaço anteriormente dentro da Universidade Federal de Sergipe. Em maio, a UFS divulgou um projeto de estudantes de Jornalismo que investigava justamente os impactos ambientais e sociais associados à corrida pela inteligência artificial no estado. O trabalho, posteriormente transformado no documentário “Vampiros de recursos naturais”, foi selecionado na 18ª edição do Prêmio Fernando Pacheco Jordão para Jovens Jornalistas, do Instituto Vladimir Herzog. (UFS)
Segundo data center está previsto para Barra dos Coqueiros
A investigação também identificou um segundo projeto previsto para Barra dos Coqueiros, município localizado na Região Metropolitana de Aracaju. Nesse caso, ainda não foram divulgados números equivalentes sobre demanda elétrica ou hídrica. Segundo a reportagem, a localização exata também não estava definida, mas autoridades estaduais indicaram que a instalação ficaria próxima à infraestrutura termelétrica existente na região. (Mangue Jornalismo)
A possibilidade adiciona outra dimensão ao debate: a origem da energia utilizada pela infraestrutura digital. Embora o Brasil seja considerado atraente para data centers justamente pela disponibilidade de fontes renováveis, a localização de cada empreendimento e sua conexão ao sistema elétrico podem produzir resultados diferentes. O desafio para governos e reguladores será conciliar o crescimento da economia digital com segurança energética, custos de infraestrutura e compromissos ambientais.
Data centers se transformam em questão nacional
O caso sergipano não está isolado. O crescimento dos investimentos em inteligência artificial está aumentando a demanda por data centers em diversas regiões brasileiras. Ao mesmo tempo, o setor tenta obter condições tributárias mais favoráveis. Em agosto, com o Redata fora das prioridades imediatas do Senado, representantes do segmento passaram a direcionar parte das articulações para discussões sobre redução de ICMS incidente sobre equipamentos importados, segundo reportagem da Exame. (Exame)
A expansão também está entrando definitivamente no planejamento energético. Além dos aproximadamente 5 GW de demanda relacionada aos data centers considerados nas projeções até 2030, estimativas de horizonte mais longo analisadas pela EPE chegam a aproximadamente 20 GW no PDE 2035. Isso significa que decisões tomadas agora sobre transmissão, geração, armazenamento e localização dessas estruturas poderão influenciar o sistema elétrico brasileiro durante a próxima década. (Gesel)
Em Sergipe, portanto, a discussão vai além da chegada de novos investimentos tecnológicos. O desafio será definir quais benefícios econômicos os projetos poderão entregar, quais contrapartidas deverão ser exigidas e como administrar a demanda adicional por eletricidade e recursos hídricos. À medida que a inteligência artificial cresce, a infraestrutura física que sustenta essa tecnologia também passa a ocupar espaço cada vez maior nas decisões de governos, legisladores e órgãos reguladores.
Fontes
Mangue Jornalismo — reportagem publicada em 24/08/2026
Universidade Federal de Sergipe — investigação sobre IA, energia e recursos naturais
Instituto Vladimir Herzog — vencedores do Prêmio Fernando Pacheco Jordão 2026
Exame — debate político e tributário sobre data centers e Redata
