Propostas incluem integração de dados, digitalização de serviços e participação privada em infraestrutura tecnológica, colocando transformação digital no debate eleitoral.
A tecnologia entrou de maneira direta na discussão sobre o tamanho e o funcionamento do Estado durante a campanha presidencial de 2026. O programa apresentado pela candidatura de Romeu Zema à Justiça Eleitoral defende uma administração pública mais digital, com integração de bases de dados, ampliação de serviços eletrônicos e maior participação da iniciativa privada na infraestrutura necessária para sustentar essa transformação. As propostas fazem parte de uma visão mais ampla de redução da atuação direta do poder público em determinados setores e expansão de modelos baseados em concessões, parcerias e privatizações.
Para o cidadão, entretanto, a questão mais importante não é apenas saber se o governo será mais ou menos digital. É entender o que uma transformação desse tipo poderia mudar na prática ao acessar serviços públicos, documentos, benefícios e informações governamentais. Também existem questões relacionadas à proteção de dados, segurança cibernética, inclusão de brasileiros que ainda possuem dificuldades de acesso à internet e dependência de fornecedores privados. Por isso, analisar o plano exige separar objetivos políticos, propostas concretas e medidas que ainda dependeriam do Congresso, de regulamentação ou de decisões administrativas futuras.
O que o plano de Zema propõe para digitalizar o Estado
Entre os pontos apresentados está a intenção de ampliar a digitalização da administração pública e utilizar tecnologia para tornar processos governamentais mais eficientes. A proposta envolve maior integração entre sistemas e bases de dados, permitindo que diferentes áreas do poder público compartilhem informações de maneira mais estruturada. A ideia segue uma tendência que já existe no Brasil, onde serviços públicos vêm migrando gradualmente para plataformas digitais e procedimentos que antes exigiam atendimento presencial passaram a ser realizados pela internet.
A integração pode trazer vantagens práticas. Um cidadão que atualmente precisa apresentar repetidamente informações que já estão armazenadas em diferentes órgãos poderia, em um cenário de interoperabilidade bem implementado, enfrentar menos etapas burocráticas. Governos também podem utilizar dados integrados para identificar inconsistências, acelerar análises e direcionar políticas públicas. O resultado potencial seria redução de custos administrativos e menor tempo gasto em procedimentos simples, embora os efeitos dependam da qualidade dos sistemas implementados e das regras utilizadas para o compartilhamento dessas informações.
O programa também defende maior presença do setor privado na infraestrutura relacionada à transformação digital. Isso pode envolver contratação de serviços tecnológicos, processamento de informações, conectividade, armazenamento e outras estruturas utilizadas pela administração pública. O modelo não é necessariamente equivalente à privatização completa de serviços públicos: empresas privadas já fornecem tecnologia para governos em diferentes níveis. A questão central é determinar quais atividades permaneceriam sob controle direto do Estado e quais poderiam ser transferidas ou contratadas junto ao mercado.
Essa diferença precisa ser observada porque infraestrutura digital se tornou estratégica para o funcionamento do poder público. Sistemas de saúde, educação, arrecadação, segurança, Previdência e identificação de cidadãos dependem cada vez mais de redes, servidores e bancos de dados. Uma interrupção pode afetar milhões de pessoas. Portanto, qualquer expansão da participação privada precisa ser acompanhada de contratos claros, fiscalização, padrões de segurança e mecanismos capazes de garantir continuidade dos serviços caso fornecedores enfrentem problemas.
Estado digital pode facilitar serviços, mas também cria novos desafios
A digitalização oferece benefícios evidentes quando reduz filas e deslocamentos. Solicitar documentos, acompanhar processos ou acessar informações pelo celular pode representar economia de tempo e dinheiro, especialmente para quem vive longe de unidades físicas de atendimento. A expansão do governo digital brasileiro nos últimos anos demonstra como diferentes serviços podem ser transferidos para ambientes eletrônicos. Entretanto, transformar a internet na principal porta de entrada para o Estado também exige considerar quem ainda enfrenta dificuldades para utilizar essas ferramentas.
Dados oficiais sobre conectividade mostram que o acesso à internet avançou significativamente no Brasil, mas diferenças regionais e socioeconômicas permanecem. Além da disponibilidade de conexão, existe a questão da habilidade digital. Idosos, pessoas com baixa escolaridade ou cidadãos sem equipamentos adequados podem enfrentar dificuldades mesmo quando determinado serviço está tecnicamente disponível pela internet. Um projeto de digitalização precisa, portanto, manter alternativas acessíveis ou oferecer suporte suficiente para impedir que eficiência administrativa resulte em exclusão.
Outro desafio é a proteção de dados pessoais. Quanto maior a integração entre bancos governamentais, maior pode ser a capacidade de simplificar serviços, mas também aumenta a necessidade de controles rigorosos sobre quem pode consultar cada informação e para qual finalidade. O Brasil possui a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que estabelece princípios e obrigações aplicáveis também ao tratamento de informações pelo poder público. Qualquer sistema integrado precisa operar dentro desse marco jurídico e adotar mecanismos capazes de reduzir acessos indevidos e vazamentos.
A segurança cibernética também ganha relevância. Ataques contra instituições públicas podem interromper serviços ou expor informações sensíveis, e a expansão da digitalização aumenta a quantidade de sistemas considerados essenciais. Isso exige investimentos permanentes em proteção, monitoramento, atualização de softwares e capacitação de servidores. A participação de empresas privadas pode oferecer conhecimento técnico especializado, mas não elimina a responsabilidade do Estado de fiscalizar contratos e proteger as informações sob sua guarda.
O que é proposta eleitoral e o que realmente poderia mudar
É importante diferenciar um programa de governo de uma política já aprovada. As diretrizes apresentadas por candidatos durante uma eleição mostram prioridades e compromissos políticos, mas não possuem automaticamente força de lei. Caso eleito, um presidente ainda precisa transformar determinadas propostas em medidas administrativas, projetos legislativos, regulamentações ou programas orçamentários. Mudanças envolvendo empresas estatais, contratos públicos e estruturas estratégicas podem depender também da participação do Congresso Nacional e de outros órgãos.
Essa distinção é especialmente relevante em períodos eleitorais. Uma proposta apresentada em um plano de governo não deve ser divulgada como uma mudança que já está ocorrendo. Da mesma forma, objetivos amplos como “digitalizar o Estado” podem envolver dezenas de iniciativas diferentes e somente poderão ser avaliados com precisão quando houver detalhamento sobre orçamento, cronograma, responsabilidades e indicadores de desempenho. Para o eleitor, comparar programas exige observar não apenas a intenção anunciada, mas também como cada candidato pretende executá-la.
No caso da maior participação privada, outro ponto fundamental é a definição dos limites. Contratar uma empresa para fornecer infraestrutura de nuvem, por exemplo, é diferente de transferir decisões administrativas ou o controle sobre políticas públicas. O Estado continua responsável por assegurar direitos, fiscalizar fornecedores e determinar como informações públicas são utilizadas. Por isso, debates sobre digitalização precisam ir além da oposição simplificada entre Estado e iniciativa privada.
Também será necessário observar quais mecanismos de transparência seriam utilizados. Contratos de tecnologia podem envolver valores elevados e serviços complexos, tornando difícil para o cidadão acompanhar resultados apenas por documentos técnicos. Metas públicas, auditorias, indicadores de disponibilidade e regras claras sobre tratamento de dados ajudam a permitir que sociedade e órgãos de controle avaliem se determinada contratação realmente trouxe economia e melhoria dos serviços.
A proposta apresentada pela candidatura de Romeu Zema coloca uma questão relevante no centro das eleições de 2026: qual deve ser o papel do Estado em uma sociedade cada vez mais digital? A modernização pode reduzir burocracia, integrar informações e facilitar o acesso a serviços, mas não depende apenas da adoção de novas tecnologias. Segurança cibernética, proteção de dados, inclusão digital, fiscalização e continuidade dos serviços são partes igualmente importantes dessa transformação. Para o eleitor, o principal cuidado é separar aquilo que consta como objetivo eleitoral daquilo que efetivamente poderá ser implementado. A digitalização do governo pode gerar ganhos concretos, mas seu impacto dependerá de como as propostas forem transformadas em políticas públicas, quais salvaguardas serão adotadas e quanto controle permanecerá nas mãos do poder público.
Fontes:
- Capital Digital — Zema propõe Estado digital com infraestrutura privada — fonte principal sobre as propostas apresentadas no plano de governo.
- TSE — Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais — fonte oficial da Justiça Eleitoral para consultar candidaturas, propostas apresentadas e informações eleitorais.
- Governo Digital — serviços e transformação digital do governo federal — referência oficial para contextualizar o estágio atual da digitalização dos serviços públicos brasileiros.
- IBGE — acesso à internet e tecnologia da informação — fonte oficial para dados sobre conectividade, acesso à internet e desigualdades digitais no Brasil.
- ANPD — Autoridade Nacional de Proteção de Dados — referência oficial para contextualizar LGPD, tratamento de dados pessoais e obrigações envolvendo o poder público.
