Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em negociação empresarial, gestão de conflitos e estruturação de soluções em ambientes corporativos complexos, considera que mediações que não chegam a acordo são tratadas pelas organizações com um nível de análise inversamente proporcional ao que mereceriam. Quando a mediação funciona, o acordo fala por si. Quando não funciona, a tendência é atribuir o resultado à intratabilidade do conflito ou à falta de boa-fé de uma das partes, sem examinar o que no processo contribuiu para o desfecho. Essa ausência de análise é o que transforma mediações que falharam em oportunidades perdidas de aprendizado, e o que aumenta a probabilidade de que o próximo processo sobre o mesmo conflito encontre as mesmas barreiras.
Leia a seguir o que as falhas de mediação revelam e o que fazer quando o processo não chegou onde deveria.
Por que mediações falham com mais frequência do que deveriam?
A maioria das mediações que não chegam a acordo falha por razões que poderiam ter sido identificadas antes do processo começar. Haroldo Augusto Filho evidencia que quatro causas respondem pela maior parte dos casos: partes que entraram no processo sem disposição genuína de chegar a um acordo, conflito que foi levado à mediação num estágio em que o nível de desgaste entre as partes já havia comprometido a capacidade de construção conjunta, ausência de autoridade decisória real dos representantes que participaram das sessões e expectativas desalinhadas sobre o que a mediação poderia entregar dentro do escopo do conflito específico.
Cada uma dessas causas tem uma característica comum: ela estava presente antes do processo começar e poderia ter sido identificada com uma avaliação inicial mais rigorosa do que as partes estavam trazendo para a mesa. Mediações que começam sem essa avaliação estão operando com informação insuficiente sobre as condições que determinam se o processo tem condições reais de funcionar, e essa lacuna de informação é o que transforma casos potencialmente resolvíveis em processos que consomem tempo e energia sem produzir resultado.
O que a forma como a mediação falhou revela sobre o conflito?
Nem todas as falhas de mediação têm o mesmo significado. Uma mediação que falhou porque uma das partes se recusou a explorar qualquer solução além da sua posição original revela algo diferente de uma mediação que avançou até um ponto de quase acordo e travou numa única variável que nenhuma das partes estava disposta a mover. A primeira sinaliza que a disposição para resolver ainda não está presente; a segunda sinaliza que a disposição existe, mas que algo específico está impedindo o fechamento.

Essa distinção importa porque determina o que fazer a seguir. No primeiro caso, o trabalho antes de tentar um novo processo é entender o que precisaria mudar na situação de cada parte para que a disposição de resolver surgisse, e isso frequentemente significa esperar que as circunstâncias mudem de forma que tornem o acordo mais atraente do que a alternativa de continuar em conflito. No segundo caso, o trabalho é identificar o que estava impedindo o movimento na variável que travou o processo, e se há uma forma de abordar essa variável que nenhuma das partes havia considerado durante as sessões. Para Haroldo Augusto Filho, essa análise pós-processo é o investimento mais subestimado em gestão de conflitos corporativos: o que uma mediação que falhou ensina sobre o conflito é frequentemente mais valioso do que o que uma mediação que funcionou revela, porque o fracasso expõe as camadas do problema que o processo não conseguiu alcançar.
O que fazer quando a mediação chegou ao limite e o conflito permanece?
Quando a mediação esgota suas possibilidades sem produzir acordo, as partes precisam decidir o que fazer com um conflito que continua existindo e que agora tem um histórico adicional de tentativa de resolução frustrada. Esse histórico pode pesar de formas distintas, dependendo de como o processo foi conduzido e encerrado. Uma mediação encerrada de forma que preservou o respeito mútuo entre as partes e que deixou claro o que impediu o acordo cria condições melhores para os passos seguintes do que uma mediação encerrada com acusações mútuas sobre quem foi responsável pelo fracasso.
As alternativas disponíveis depois de uma mediação que não chegou a acordo incluem a arbitragem, quando o conflito tem um objeto suficientemente definido para ser submetido a uma decisão vinculante de um terceiro; o contencioso judicial, quando as alternativas extrajudiciais foram esgotadas e uma das partes precisa de uma decisão que a outra não vai construir voluntariamente; e a retomada da negociação direta, quando o processo de mediação produziu clareza suficiente sobre onde estão os impasses para que as partes consigam endereçá-los de forma mais focada do que conseguiriam sem ter passado pelo processo. Tal como remete Haroldo Augusto Filho, essa terceira alternativa é frequentemente subutilizada, porque a percepção de fracasso da mediação cria uma resistência emocional a qualquer processo que se pareça com o que acabou de não funcionar, mesmo quando a mediação produziu condições melhores para uma negociação direta do que as que existiam antes.
Como evitar que o fracasso de uma mediação comprometa as possibilidades seguintes?
O encerramento de uma mediação que não chegou a acordo é uma etapa que merece tanta atenção quanto qualquer sessão do processo. Como esse encerramento é conduzido, determina se as portas para processos futuros permanecem abertas ou se fecham junto com o processo que não funcionou. Encerramentos que atribuem responsabilidade pelo fracasso a uma das partes, que encerram sem nenhuma clareza sobre o que impediu o acordo ou que deixam as partes com menos disposição de comunicação do que tinham antes de começar, estão adicionando um problema ao conflito que já existia.
Um encerramento bem conduzido documenta o que foi explorado, o que ficou sem resolução e o que cada parte precisaria que mudasse para que um novo processo tivesse perspectiva diferente. Essa documentação não é um relatório formal: é a clareza compartilhada entre as partes sobre onde o processo chegou e por que não foi além. Haroldo Augusto Filho defende que mediadores que conduzem esse encerramento com rigor estão prestando um serviço que vai além do processo que conduziram: estão preservando as condições para que o conflito ainda possa ser resolvido, mesmo que não tenha sido naquela tentativa específica. A mediação que falhou, encerrada dessa forma, não é um ponto final. É o diagnóstico mais preciso que as partes têm sobre o que precisará ser diferente para que a próxima tentativa chegue onde essa não chegou.
